Tecnologias na escola: algumas experiências e possibilidades
Ítalo Modesto Dutra*
Rosália Procasko Lacerda**
Resumo
A necessidade de transformar a sala de aula tem levado a maioria das escolas públicas e
privadas ao uso de novas tecnologias e ao repensar de metodologias na tentativa de
construir um currículo que contemple os interesses dos alunos e as mudanças globais
que ocorrem tão rapidamente. Dessa forma, a pesquisa em sala de aula e o uso da
Internet têm lugar de destaque no cenário educativo, embora, muitas vezes, não reflitam
mudanças pedagógicas de fato, deixando de integrar-se ao currículo e transformando-se
em meros apêndices da grade curricular. Pressupondo-se que a possibilidade de interagir
com outros sujeitos seja o fundamental papel do uso da tecnologia na escola,
pretendemos, neste artigo, refletir sobre alguns recursos da Internet utilizados com
alunos e professores a partir de nossa experiência em parcerias com escolas públicas
brasileiras.
Palavras-chave: Internet, interação, escola, construtivismo.
Abstract
The continuous transformations of school and society leads to a rational and efficient
use of the new technologies as a way to rethink methods and curriculum with the main
goal to respect students' needs and global changes. We assume that increase the
possibilities of interaction with other teachers and students is, fundamentally, the role of
technologies in school. We intent to show, in this paper, a little of our experience in
using technology with another Public Brazilian Schools, and so discuss possibilities and
new challenges of technology integration in the school.
Keywords: Internet, interaction, school, construtivism.
Por que interagir? E com quem?
Tomando-se a aprendizagem sob uma perspectiva construtivista, é fundamental
uma interação entre o sujeito e o objeto de seu interesse (Nitzke, 2002). Dessa forma
uma nova concepção pedagógica se faz necessária, já que o aprender não está centrado
no professor, mas no aluno, e sua participação determina a construção do conhecimento
* Doutorando do PGIE, Mestre em Matemática pela UFRGS, Pesquisador do Laboratório de Estudos
Cognitivos (LEC-UFRGS), Professor do Colégio de Aplicação da UFRGS, e-mail: italo@cap.ufrgs.br
** Mestre em Estudos da Linguagem pela UFRGS, Pesquisadora do Laboratório de Estudos Cognitivos
(LEC-UFRGS), Professora do Colégio de Aplicação da UFRGS, e-mail: rosalia@cap.ufrgs.br

e o desenvolvimento de habilidades cognitivas. O trabalho individual, fomentado
tradicionalmente, dá lugar ao trabalho em equipe o qual promove o compartilhamento
das idéias e das experiências. Além disso, o aprendizado já determinado pelo professor
no modelo antigo de educação, é substituído pela necessidade de aprender a aprender,
desenvolvendo-se, assim, habilidades para a era da informação (Heide & Stilborne,
2000). A partir da experiência de reestruturação curricular já reconhecida do Projeto
Amora (Colégio de Aplicação-UFRGS) nossa necessidade de formação de parcerias, a
saber, principalmente com escolas públicas brasileiras, nos levou a utilizar os meios
telemáticos para a criação de possibilidades de comunicação que sem eles não poderiam
existir. Num histórico mais recente, destacamos o projeto Educadi (CNPQ), a formação
de professores nos cursos de especialização do Proinfo (SEED-MEC) e o concurso Sua
Escola a 2000 por hora do Instituto Ayrton Senna, como os principais movimentos nos
quais tivemos participação efetiva e que nos levam a fazer as reflexões que se seguem
sobre alguns dos recursos que utilizamos.
O webfólio
As escolas parceiras do concurso Sua Escola a 2000 por hora compartilham sua
rotina através de um webfólio publicado na página do programa. Cada webfólio
apresenta dados gerais sobre a escola e espaço para o registro dos projetos pedagógicos
desenvolvidos, bem como de atividades diárias. O webfólio permite ao usuário atualizar
informações, bem como manter-se informado sobre os demais parceiros. Não é possível
alterar dados ou fornecer contribuições ao webfólio sem o acesso com senha, o que
garante a cada escola o controle das informações postadas. Geralmente o administrador
do webfólio é o professor, no entanto o preenchimento pode ser feito de acordo com os
interesses dos alunos. A administração geral dos webfólios junto à página do Programa
Sua Escola a 2000 Por Hora é feita pelo próprio Instituto Ayrton Senna.
Figura 1 Webfólio do Colégio de Aplicação na página do Programa Sua Escola a 2000 Por Hora
Alguns webfólios oferecem oportunidade de interação assíncrona, através do
preenchimento de enquetes e no acesso à página de cada escola, cujos links estão
disponíveis.
Nos cursos de formação de professores do Proinfo, os webfólios são construídos
pelos professores e acessados a partir da publicação de páginas da Internet. Dessa
forma, o aluno (ou professor-aluno) produz seus relatos e determina a sua organização
de acordo com a sua própria necessidade. Além disso, a aparente maior dificuldade a ser
enfrentada (a necessidade do uso de um editor de páginas e de fazer a publicação das
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mesmas) leva-nos a necessidade de produzir uma apropriação de alguns recursos
tecnológicos imprescindível ao uso pedagógico da Internet.
"Sem dúvida, a interconectividade atingida através da Internet
é muito maior do que a que vivemos há cem ou cinqüenta anos
através do telégrafo, rádio ou telefone. Todavia nós ainda
fazemos com a Internet nada mais nada menos do que o que
desejamos no domínio das opções que ela oferece, e se nossos
desejos não mudarem, nada muda de fato, porque continuamos
a viver através da mesma configuração de ações (de
emocionar) que costumamos viver". (Maturana, 2001, p. 199)
Vemos que, neste formato, o webfólio tem poucas possibilidades do ponto de
vista da interação. Embora seja um recurso bastante interessante para dar visibilidade,
em um único lugar, da rotina dos trabalhos de cada um dos parceiros, ele precisa ser
complementado por outros que possibilitem discussões sobre o que é relatado.
Listas e fóruns de discussão
A participação em listas e fóruns de discussão permite ao usuário a interação
com os parceiros tanto no que se refere à troca de informações e discussão de cunho
teórico, quanto à resolução conjunta de problemas. Por permitir a expressão, discussão
e contraposição de idéias entre os sujeitos, é um recurso que promove a aprendizagem e
possibilita a construção do conhecimento.
"É preciso criar situações para que esse aluno estabeleça
relações. Para que estabeleça relações entre relações, que faça
construções renovadas e reinvente as noções que se pretende
que ele aprenda. Só assim se alcança a compreensão de um
conhecimento". (Nitzke, 2002)
Figura 2 Tela principal dos Grupos de discussão da página do Programa Sua Escola a 2000 Por Hora
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Figura 3 Página inicial da lista de discussão sobre Informática na Escola do Programa Sua Escola a
2000 Por Hora
Tanto as listas quanto os fóruns de discussão podem abranger várias temáticas,
as quais são organizadas de forma a permitir a participação do usuário em cada uma
delas. Na Figura 2 temos a tela inicial dos Grupos de Discussão, na qual o internauta
pode escolher dentre três temas. Ao cadastrar-se, começa a fazer parte de uma lista de
discussão, recebendo mensagens através do correio eletrônico e interagindo apenas com
usuários interessados no tema selecionado. Já na Figura 3 é apresentada uma das telas
dos Fóruns de Discussão que se desenvolvem a partir do acesso direto à página do
programa. O usuário escolhe o tema que lhe interessa, faz o cadastro e sua participação
depende da conexão ao ambiente.
No Projeto Amora, utilizamos os fóruns de discussão como mais uma
possibilidade de interação com os alunos em trabalhos de construção coletiva orientados
por um professor: os projetos de aprendizagem. Esses últimos, surgem de temas e
perguntas decididos pelos alunos e cuja orientação deve abranger assuntos muitas vezes
diferentes da área de formação dos professores. Assim, os fóruns permitem a
participação de especialistas de outras áreas nos projetos dos alunos que estão também
visíveis porque os alunos constroem e publicam páginas da Internet sobre os assuntos
que estão estudando.
Bloggers
O uso de bloggers tem se difundido nas escolas por permitir o registro de forma
rápida e simples. O blog funciona como um diário no qual o usuário (aluno ou
professor) pode registrar atividades, eventos ou impressões acerca de determinado
assunto. Ao contrário do webfólio apresentado, que se refere às atividades de cada
escola, o blog tem sido utilizado pelas escolas parceiras também como registro de
grupo, uma vez que, compartilhado o endereço da publicação, vários usuários podem
acrescentar informações ao diário construído.
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Figura 4 Blog construído por um aluno para o Jornal Virtual do Programa Sua Escola a 2000 Por Hora
A construção de um blog pode ser feita, por exemplo, a partir do site
www.blogger.com.br. Uma vez feito um cadastramento do usuário e definida uma
senha, ela qual pode ser compartilhada por um grupo no caso de construção coletiva. É
possível inserir imagens e alterar os dados postados. Os alunos e professores parceiros
têm desenvolvido bloggers para relatar atividades, documentar eventos e planejar
desafios cooperativos. O acesso ao blog é feito diretamente no endereço de publicação,
portanto mesmo que a escola não tenha página pode fazer os registros utilizando o
acesso à Internet. A construção de um blog de forma cooperativa também possibilita a
interação entre os sujeitos e promove a troca de idéias e a resolução de desafios de
forma colaborativa.
Mapas conceituais
Tem sido muito difundido, ultimamente, o uso de mapas conceituais nas mais
diversas etapas do processo educacional. Um mapa conceitual, de acordo com Novak, é
uma ferramenta para armazenar e organizar conhecimento. Eles incluem conceitos
(geralmente armazenados em caixas ou círculos) e as relações entre eles que indicam
uma conexão entre conceitos.
É farta a literatura sobre o uso de mapas conceituais atualmente, bem como os
seus diferentes usos (Araújo, 2002). Por outro lado, de acordo com a abordagem que
estamos propondo nesse artigo, a sua utilização, como forma compartilhar e construir
conhecimento, parece ainda centrada nos resultados finais dos mapas, bem como na
determinação de modelos "corretos" de conhecimento a serem comparados com os
mapas conceituais construídos.
A ferramenta CMap Tools, desenvolvida no Institute for Human and Machine
Cognition da University of West Florida, nos permite construir mapas conceituais e
publicá-los em servidores, bem como transformá-los em figuras que podem ser
publicadas em páginas da Internet.
Temos utilizado a construção dos mapas conceituais tanto por alunos quanto por
professores como forma de possibilitar a tomada de consciência dos aprendizes, e nesse
caso nos consideramos professores também aprendizes, das diversas relações
existentes nos conceitos trabalhados em um currículo. Isso nos leva, nas discussões, a
produzir deslocamentos das propostas metodológicas para que atendam à necessidade
de construção evidenciada nas relações expressas pelos mapas conceituais.
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Figura 5 Mapa conceitual produzido por professores que orientavam um projeto sobre fotografia
Por exemplo, na figura acima, um mapa conceitual construído por professores
orientadores de um projeto de aprendizagem sobre fotografia, possibilitou, a partir da
discussão do mapa tanto por colegas professores de outras áreas quanto pelos próprios
alunos, a preparação de atividades interdisciplinares com a intenção de esclarecer
melhor os conceitos envolvidos nesse projeto.
Mais uma vez, a interação parece ter sido o principal operador de transformação
e construção. Assim, aliado ao compartilhamento dos mapas, as discussões geradas
tanto em Fóruns ou listas, ou ainda chats, recriam e ampliam as construções individuais
ou dos pequenos grupos a partir dos confrontos de experiências e conhecimentos da
comunidade que a parceria á distância cria.
Conclusões
Escolhemos, da nossa experiência como docentes, alguns recursos tecnológicos
disponíveis àqueles que tem acesso a Internet que foram testados em situações
diferentes. As reflexões que nos levaram a escrever esse artigo, encaminham nosso
trabalho a uma aposta cada vez maior nas possibilidades de construção de conhecimento
coletivo, compartilhado em redes e, sobretudo, que respeite a ação dos envolvidos nesse
processo. Esperamos contribuir com a discussão cada vez mais presente de
reformulações nas propostas de estruturação do trabalho na escola.
Referências bibliográficas
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avaliação da aprendizagem baseado em mapas conceituais. In Simpósio Barsileiro de
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NITZKE, J. A. CARNEIRO, M. L. F. FRANCO, S. R. K. Ambientes de Aprendizagem
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